É animador ouvir de alguém, do alto dos seus 80 anos, que A vida é um escândalo. Ainda mais quando esse alguém é um artista que construiu uma trajetória contundente na poesia, na gestão cultural, na intelectualidade, na educação e na promoção da leitura; mas, sobretudo, quando esta voz de poeta (tão próximo de Drummond, diga-se) revela uma investigação atenta do cotidiano, simultaneamente singela e lúcida.
Affonso Romano de Sant Anna, professor, poeta, ensaísta, jornalista, cronista, autor do emblemático Que país é este? (de inigualável reverberação nos anos 1980 e ainda aclamado décadas após sua publicação) e de mais de 40 livros, reúne poemas inéditos no lançamento A vida é um escândalo. Os versos mapeiam o mundo sensível do alto de uma longa experiência como um drone, e auscultam o tambor quase inaudível do coração da terra, de si mesmo e do outro.
Nos versos do novo livro de Affonso Romano de Sant Anna, o autor, que já levou a poesia à audiência da TV no diário Jornal Nacional, nos conduz a parar, para então perceber o viço das coisas. Há vitalidade no inanimado da natureza discreta e silenciosa: Não há matéria inerte / os seres que não se mexem / se não nos ensinam a morrer, / têm apenas um jeito mais lento / menos violento / de ser. ( Comecei a me interessar ).
Há vitalidade nas paisagens comuns da vida urbana cotidiana, do mundo alheio, de um dia na praia, no olhar sobre e na mulher: elas se deixam levar aos bares / boates e cama / mas pensam em outra coisa / - na lua, talvez / espelho imenso em que as fêmeas se miram / e de onde tiram a força / que as sublimam . ( Na praia ).
Há viço e escândalo na revelação libertadora da cartografia íntima: Sossega teu ego. / O mundo não necessita de ti. ( O que te leva a pensar ). Há vida na renovação e no desapego aos conceitos: Sobre o amor / desaprendo ternamente. ( Agora que não sei mais o que sabia ).
Enfim, a vida só pode ser um escândalo para quem sabe lê-la e para quem se propõe a dialogar com a poesia das coisas. O poeta partilha a medida da curiosidade nas páginas saborosas de A vida é um escândalo: nunca se sabe / se o que ardeu /é epitáfio de algo que morreu / ou espetáculo / em combustão. ( Como o primitivo ).