a dedicatória já diz a que veio uma mulher só não faz verão : às mulheres sós . o livro de estreia de daniela rezende é um convite em si a um enlace, que é também um mergulho na solidão em comum. risco, belisco, bravura. mulher que ladra não morde ? em boca fechada não entra mulher ? os poemas vão chegando assim, revolvendo os ditos, abalando os chãos, estampando alto a mulher é um animal gigante . sem se eximir de lembrar do abate: (haverá um mugido possível?) . a costura dos versos segreda que estamos lá. é uma obra que convida a estar no movimento das margens, das linhas arredias, das minúcias das minúsculas, dos vãos entre um gole e outro da língua de tantos gumes e laços. língua gloriosa laçada e levada . de dentro da solidão, dos escuros, questionar a luz com a lucidez combativa de que noite e sombras/não protegem ninguém . protesta, revolta, inquieta, esse livro comunga. medos, histórias, sintomas. de geração em geração. o grito em erupção na minha boca ecoa na mesma garganta que sente estou cansada, tão cansada, quero uma trégua dessa merda toda. . um ser morta aos poucos . essas páginas também falam de morte. sobrevivências, a outra face. há poemas assim, no limiar. cortam, narram. poesia de e se : o corpo é uma ficção . de ironia e voragem, o verso enverga, avança em escadas e escuro . enfrenta: será bicho ou homem? . desloca: na última quarta-feira , engasgo. poemas assim, uma mulher não deve vacilar e a buceta da brasileira vale menos do que o kg do feijão . sim, o interrogatório é profundo & longo & profundo . sim, mas basta abrir o livro de história . absurdamente sim, basta ouvir o presidente . mas atenção para o poema agora . no fogo , sem medo . uma mulher , o poema repete. assimilamos que somos. marias, teresas, sylvias, glórias, avós, mães, filhas. cumplicidades como acordar em um poema feito tristeza . ramificar-se em georgia . alçar a terra, o desejo : ter um corpo e não saber . os poemas desse livro dizem de contravontades. urros, muros, murros. e também de vontades. rumor das asas: uma mulher só não faz verão . um livro feito de coragens. vamos?