A loucura coletiva e o horror são temas recorrentes na obra de Leonid Andrêiev (1871-1919), um dos autores russos mais lidos no início do século XX e cuja obra tem sido pouco publicada nas últimas décadas no Brasil. Esta edição apresenta dois de seus textos principais: a novela O riso vermelho e a peça O Rei Fome. A tradução é de Érika Batista e o livro conta com um posfácio de Elena Vássina, professora de literatura e cultura russa na Universidade de São Paulo.
O riso vermelho – Fragmentos de um manuscrito encontrado (1904) foi motivado pela Guerra Russo-Japonesa de 1904 e escrito durante o conflito. Considerada a primeira manifestação do expressionismo na literatura russa, a novela é composta por trechos de manuscritos supostamente deixados por um oficial da artilharia ao retornar ferido do front, e de seu irmão, que não lutou mas também foi psicologicamente impactado pela guerra.
O relato, em fragmentos, se inicia com cenas extremamente realistas das batalhas, mas logo vai assumindo um ritmo quase febril, misturando delírio, insanidade e horror psicológico. Um ambiente de irrealidade e alucinações toma conta dos combatentes, extenuados e famintos, que se movem pelo campo de batalha como autômatos, rodeados de mortos e poças de sangue. Nesse momento, Andrêiev não se refere mais apenas ao conflito com o Japão, mas a todas as guerras e às crises de loucura coletiva que acometem periodicamente a humanidade.
Em O Rei Fome – Espetáculo em cinco cenas com prólogo (1908), um grupo de operários que trabalham sob o barulho incessante das máquinas no ambiente insalubre de uma fábrica é incitado, pelo próprio rei, a se revoltar. O monarca sabe que essa população pobre e faminta é sempre a vítima dos próprios protestos. A vida desse povo explorado é regida por três personagens que representam as principais instâncias do poder: o Rei Fome, a Morte e o Tempo.
O Rei Fome é um dos exemplos mais radicais do teatro político e visionário de Andrêiev ao dramatizar o sofrimento dos trabalhadores no contexto das tensões revolucionárias da Rússia pré-1917. Lançada numa época em que o autor desfrutava de bastante sucesso com o público, a peça foi censurada e teve sua encenação proibida ao longo de toda a vida do autor. Em 1921, o futuro cineasta Serguei Eisenstein, então cenógrafo de teatro, chegou a fazer esboços e ilustrações para a peça, mas a montagem também foi proibida.
Andrêiev foi contemporâneo e muito próximo a Maxim Gorki, expoente maior do realismo socialista e seu grande incentivador na literatura. Militante antitsarista, em seguida antibolchevique, Andrêiev aos poucos se distanciou do naturalismo de Gorki e se voltou a uma realidade mais sombria, pessimista. Hoje, o contista e dramaturgo é visto pela crítica como uma consciência dissidente e premonitória de sua época.
Segundo a professora Elena Vássina, um dos temas principais de Andrêiev é o irracional e indomável instinto de violência que se esconde dentro da natureza. “Fortemente marcado pelo pessimismo social, o escritor não via nenhuma possibilidade de resolver as profundas angústias existenciais que, ao seu ver, faziam parte integrante da trágica condição de vida humana”, escreve ela no posfácio da edição.
Se hoje seu nome é menos familiar para boa parte dos leitores não russos, entre 1900 e 1920 Andrêiev rivalizava, em popularidade, com autores como Anton Tchekhov e Liev Tolstói, tanto na Rússia como fora dela. Isso também se estendia ao Brasil. Como escreve o tradutor e crítico Irineu Franco Perpetuo em Como ler os russos, a maior “inserção brasileira” de Andrêiev se deu nos primeiros surtos da “febre de eslavismo” no país, na primeira metade do século XX. Sua obra mais conhecida por aqui é a peça Os sete enforcados (1908), que continuou a ser traduzida e editada nas décadas seguintes.