A maioria de nós que atuamos na universidade nos agasalhamos na ilusão de que nossas(os) alunas(os), pelo simples fato de terem chegado ao ensino superior, têm domínio, senão total, ao menos suficiente das habilidades de leitura e, principalmente, de escrita. Ilusão ou, talvez melhor, arrogância. Assim como tantos outros bens e direitos desigualmente distribuídos na sociedade brasileira, também o letramento, isto é, o acesso à cultura letrada, ao mundo da palavra escrita, é privilégio e prerrogativa de muito pouca gente — ou seja, o acesso à cultura letrada é um problema político. Aqui, Robson Cruz descreve e critica os construtos ideológicos que presidem os modos como a escrita é tratada no universo acadêmico e que ele designa com os termos romantismo e realismo, tomados de empréstimo à história da literatura — ideologias em que ora se concebe a escrita como um dom individual intransmissível, ora como uma capacidade quase autônoma de retratar fielmente a realidade. Há um mal-estar na academia no que diz respeito à escrita, um mal-estar que falsamente individual, parece abrir possibilidades para uma autocrítica que temos evitado fazer como defensores não só de ideais educacionais progressistas, mas de uma sociedade pautada nesses ideais.