Histórias roubadas é um livro irônico e divertido, em que pequenos absurdos, memórias, acidentes e acasos são tingidos pela imaginação e pelo enorme prazer de efabular. Pelo ritmo acelerado, e a diversidade dos assuntos, pode talvez aproximar-se da crônica: também aqui narrativas múltiplas e diversas, partindo não importa de onde, se desenvolvem, com mão segura, de uma forma breve. Assim, por exemplo, Sobre ondas e bancos de areia entrelaça um banho de mar em que há risco de vida, incursões e divagações literárias e uma história breve do Rio de Janeiro; A avó do Wesley é a descoberta inesperada do eu e do mundo; encontramos alusões a Borges, e a muitos outros autores e livros; crítica social interna; grandes perguntas sem resposta, por vezes poéticas ou metafísicas; finais felizes talvez a prazo e finais abertos, de escolha múltipla; e mesmo uma história sobre o perigo de escrever histórias (roubadas ou não). O que prevalece, no entanto, do início ao fim é a esperteza de viver por entre os pingos das calamidades, e o atrevimento de fruir o que é possível, com um sorriso irônico e contagiante. Entra-se na leitura como num meio de transporte rápido, e a viagem faz-se em boa companhia. Arrisco vaticinar que este livro pertence ao número dos afortunados, que têm numerosos leitores à sua espera. Teolinda Gersão