HISTÓRIAS DE LITERATURA E CEGUEIRA é um híbrido entre ensaio e ficção. A partir da vida e obra dos escritores Jorge Luis Borges, João Cabral de Melo Neto e James Joyce, Julián Fuks constrói pequenas histórias fragmentadas de momentos da trajetória de cada um desses autores, que possuem em comum a cegueira precoce ou tardia. Cenas da criação de poemas, contos, ensaios, romances são abordados de forma original, como uma ficção sobre outra ficção. Acho que o que essas histórias transmitem é que sempre se produz uma relação muito pessoal e particular com a cegueira. Há os que conseguem fazer dela quase que um atributo, uma condição que lhes concede uma singularidade (e por isso até apreciável, em se tratando de um mundo tão homogêneo), e os que se deixam abater pelas impossibilidades que ela provoca e nunca superam essa frustração. , diz o autor. Borges, míope desde a infância e tendo acompanhado o enceguecimento do próprio pai, conhecia bem o mal que o destino lhe reservava e, ao longo dos anos, apenas foi se conformando com isso. Estava preparado, então, e quem sabe até satisfeito com a demora, quando aos 56 anos finalmente ficou cego. Já tinha armado a infra-estrutura de que necessitava. A mãe, a irmã, os amigos que o cercavam não se incomodariam em ler para ele tudo o que desejasse, e menos ainda em pôr no papel o que se desprendesse dos lábios dele, os versos que ditasse. Em pouco tempo, aquilo se converteria em ritual e já quase não o incomodaria, persistindo assim nos trinta anos seguintes.