Em Caça às bruxas e capital, Silvia Federici sintetiza sua interpretação da guerra contra as mulheres iniciada pela perseguição às “bruxas” na transição do feudalismo para o capitalismo e atualizada periodicamente ao longo dos séculos, até os dias de hoje, pela incessante violência de gênero e pelos novos cercamentos resultantes do avanço do extrativismo e das políticas neoliberais. Ao retomar os temas-chave de suas principais obras — Calibã e a bruxa, O ponto zero da revolução e Reencantando o mundo —, a autora oferece um método de crítica e leitura da atualidade que questiona reiteradamente as origens e as transformações do capital, bem como as estratégias que as mulheres encontraram e continuam encontrando para combatê-lo, com destaque para a imaginação e a construção de novos mundos, novas relações, novos comuns. Uma análise feminista, materialista e radical do tempo presente, capaz de traçar novas linhas de ruptura para a prática política. *** O estudo e a análise da caça às bruxas atravessam toda a produção teórica e a reflexão política de Silvia Federici. Neste novo texto, retomando alguns dos temas-chave de Calibã e a bruxa — a origem do capitalismo nos processos de cercamento das terras comuns e do corpo das mulheres, a separação entre produção e reprodução e a organização do trabalho reprodutivo na longa transição capitalista —, Federici nos oferece, mais uma vez, um método de crítica e leitura do presente que questiona incessantemente as origens e transformações do capital. […] Qual a atualidade da caça às bruxas? Ni una mujer menos, ni una muerta más: com esse verso, escrito em um poema contra o aumento de feminicídios em Ciudad Juárez, México, Susana Chávez, que foi vítima de feminicídio nessa cidade, deu nome a um movimento de alcance global contra a violência de gênero, o qual, a partir da América Latina, está reposicionando o mundo. Nas marés — assim se definem as manifestações oceânicas desse movimento feminista e transfeminista — apareceram muitas vezes cartazes com a frase “somos as bruxas que vocês não conseguiram queimar”. Na prática do objetivo de Reencantando o mundo, esse movimento, para o qual a obra de Federici representa uma importante referência, tem construído um feminismo de novo tipo, que, ao mesmo tempo que luta contra a violência estrutural e sistêmica, imagina e constrói outros espaços, nos quais o trabalho produtivo possa ser socializado e o cuidado possa se converter em um princípio de construção da comunidade, de relações e alianças excluídas dos parâmetros de valorização do capital. Três temas essenciais da produção de Federici são retomados em Caça às bruxas e capital e lidos através de novas lentes, a fim de também falar aos feminismos contemporâneos, aos quais a autora se dirige para identificar seus limites e potencialidades. Três temas: os velhos e novos cercamentos (enclosures); a reedição da caça às bruxas nas novas formas assumidas pela violência de gênero; a imaginação e a construção de novos mundos, novas relações, novos comuns (commons).